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quinta-feira, 14 de junho de 2012

Yes, we can!

Este post é candidato ao concurso "O melhor post do mundo da Limetree"!

(Post originalmente escrito para o MMqD e publicado em 18/11/2011)

São Paulo, 22 de março de 2009, 21hs e pouco. Marido e eu jantamos e estamos voltando para casa. Na Marginal Pinheiros, comento: “Hmmm, estou sentindo umas cólicas”. Era um domingo, prestes a completar 40 semanas, eu já havia parado de trabalhar. Chegamos em casa e depois de um tempo colocamos nossos pijamas e deitamos. Mas naquela noite não deu para dormir. As cólicas rapidamente se transformaram em contrações constantes e fortes. Ufa, calma, respira, respira, aaaaaaaiiiiiiiiiiii. A coisa foi num crescendo e no começo da madrugada fomos para o hospital. 3 cm de dilatação (mas só??). Marcamos bobeira de ter ido tão cedo, depois nos demos conta, mas, sabem como é, pais de primeira viagem...

Passei grande parte das 15 horas do meu trabalho de parto (TP) deitada numa cama numa salinha pequena, com aquela cinta do cardiotoco o tempo todo na minha barriga. Sem andar, sem comer, sem tomar água, sem reclamar. Eu sei, eu sei. Hoje teria sido tudo diferente (como foi, vocês verão adiante!). Finalmente, depois de muuuuuitas horas, estou com 10 cm de dilatação. Já tomei um banho relaxante e, também finalmente, estou no “delivery room”. O plano inicial era ter agüentado tudo na raça, mas não resisti e pedi analgesia.

Já no expulsivo, puxa daqui, empurra dali e nada de a Isadora querer sair. Depois de mais de hora, a suspeita (depois confirmada): ela deve estar com a cabeça defletida e com circular de cordão, por isso a cabeça não encaixa e o cordão a puxa para cima. Solução: cesárea, porque com a cabeça assim ela não vai encaixar nunca (disse a médica). Desabei. Tive uma gravidez super saudável e tranquila e em nenhum momento passou pela minha cabeça que eu teria que enfrentar uma cesárea. Comecei a chorar e não parei mais até ela nascer. Já tinha recebido analgesia. Para a cesárea, me anestesiaram mais. Resultado: estava anestesiada até a cabeça, mal conseguia falar, tremia como vara verde e quando ela nasceu mal consegui segurá-la porque não confiava nos meus braços.

Ela nasceu forte, linda e saudável. Todos saem e resta você em uma maca até que te tirem do centro cirúrgico e te levem para a sala de recuperação. Não sei, mas minha impressão é que fiquei horas lá sozinha. O maior acontecimento da minha vida tinha se dado e eu estava sozinha. Até que alguém se lembrou de mim e fui para a recuperação. Marido depois disse que fiquei lá durante 4 longas e absurdas horas. Longas para mim, para minha filha, que estava sem mim, e para ele que estava preocupadíssimo porque eu, que sempre tive pressão baixa, tive um pico de pressão alta. Fiquei ali exausta, num estado meio delirante por causa do cansaço, das drogas e da pressão. Até que se lembraram de mim e me levaram para o quarto e eu pude, enfim, conhecer direito, pegar, cheirar e dar de mamar para a minha pequena.

Preferi continuar na ignorância e nunca pesquisei muito a fundo se cabeça defletida é indicação de cesárea. Tenho a impressão que não, que se a médica tivesse topado esperar mais um pouco ela teria nascido de parto normal. Por outro lado, eu não tinha (e não tenho) a menor condição de avaliar quanto tempo seria seguro esperar. A cicatriz da cesárea já era pesada demais para eu ainda ter que lidar com o que poderia ter sido diferente. Hoje, 2,7 anos depois, posso dizer que este é um capítulo superado na minha vida, mas a cesárea me doeu por muito tempo. E não fisicamente porque minha recuperação foi ótima. Mas minha aflição era tanta que eu mal conseguia passar aquela pomadinha que ajuda na cicatrização.

Corta.

São Paulo, 04 de fevereiro de 2011, 21hs e pouco. Isadora foi dormir na casa da avó para podermos – marido e eu – sairmos para jantar e ir ao cinema. Dali a 5 dias eu completaria 40 semanas da minha segunda gestação, mas tinha certeza que Cecília nasceria naquele final de semana e resolvemos fazer um programa que não poderíamos fazer por muitos meses. Na porta do restaurante, comento: “Hmmm, não vai rolar. Melhor voltar para casa”. Na Marginal Pinheiros (eu, a Marginal, de noite... uma coisa assim meio cosmo-cármica, notaram?), as contrações já começaram lancinantes.

A ideia era chegar em casa, fazer uma comidinha leve para aguentarmos o TP durante a madrugada e adiarmos ao máximo a ida para o hospital. Mas cheguei em casa urrando de dor. Urrando como nunca pensei que fosse capaz. Devo ter acordado todos os vizinhos e só pensava na decisão acertada de ter mandado Isadora dormir na avó. Marido liga para a médica, que escuta meus gritos e fala para a gente ir para a maternidade.

Fechamos a mala, pegamos as lembrancinhas e fomos. Eu só pensava: “Não vou conseguir descer a escada, não vou conseguir entrar no carro, não vai dar tempo de chegar lá. Estou sentindo ela descer”. AAAAAAAAIIIIIIIIIIII. A maternidade escolhida era um tanto longe de casa. Fosse um final de tarde em São Paulo, Cecília teria nascido no carro. A poucos metros do hospital, a bolsa estoura. Do carro para a cadeira de rodas (eu não tinha a menor condição de andar), da cadeira de rodas para a cama do pré-parto. As enfermeiras me avaliam e começa a correria para chamar o médico que estava de plantão. Não, minha médica ainda não havia chegado porque ela, como eu, não poderia imaginar que eu já estava no expulsivo quando as contrações começaram.

Enquanto o médico não vem, uma enfermeira fala no meu ouvido: “Quando a contração vier, não faz força”. Se eu conseguisse, teria dado risada na cara dela. O corpo é uma máquina impressionante e quando a hora chega ele só quer tirar aquele bebê de lá de dentro e não há nada que você possa fazer para contrariá-lo. Ufa, o médico chegou. “Não dá tempo de tomar anestesia, você vai fazer mais uma força e ela vai nascer”. Às 22hs44 Cecília nascia forte, linda e saudável. Nem consigo mais descrever o tamanho da dor, só sei que foi muita. Mas quando tudo termina, a dor acaba por completo e você está lá presente, consciente, (quase) pronta para outra. Mais uma vez, joguei meu plano de parto no lixo porque Cecília não veio ao mundo numa sala à meia-luz com gente falando baixo, numa atmosfera zembadauê. Não, ela veio na adrenalina, na correria, em meio a gritos. E foi assim que eu consegui meu tão sonhado parto natural. E, não vou mentir, a sensação é maravilhosa.

Moral da história: Yes, we can!

Nota 1: Eu entendo, apoio e defendo a luta pela humanização e pelo parto normal em um país como o Brasil, cujas taxas de cesárea beiram o absurdo. Só acho que precisamos ser cautelosas para não perdermos o foco no que, de fato, importa: a saúde da mãe e do bebê e a sua vida pós-parto. Qualquer tipo de parto, por escolha ou por necessidade, é só o começo e é transformador. Todo parto transforma as mulheres em mães e os casais em famílias. O discurso não pode dar margem à idéia de que haveria uma sub-categoria de mães, seja porque não quiseram ou conseguiram um parto normal, seja porque não quiseram ou conseguiram dar de mamar na primeira hora. Mãe é mãe.

Nota 2: Também precisamos ser cuidadosas com o discurso de que o tipo de parto e o fato de você dar de mamar para seu bebê na primeira hora são fatores determinantes na amamentação. Podem ajudar, é claro, mas nem de longe são decisivos. Eu, com dois partos tão distintos, tive duas histórias lindas e bem-sucedidas de amamentação. Nenhuma das minhas filhas mamou na primeira hora. A Isadora, por impossibilidade física, e a Cecília de certa forma também. Por causa da rapidez e da força com que ela veio, tive bastante laceração. Simplesmente não achei adequado que ela mamasse enquanto eu levava pontos. Preferi esperar terminar para termos um momento de calma e tranquilidade nesse primeiro encontro. Já temos bastante culpa, não é? Não precisamos carregar mais essas.


2 comentários:

  1. Nossa, que relato magnifico! Me emocionei! Olha, cesarea realmente eh complicado. Eu detestei passar por isso, com todo respeito ao nascimento do meu filho, mas somente o fato de pensar na hipotese de outra cesarea de emergencia ja me desanima de gestar pela segunda vez. Eu tive um historico de pressao alta+hipotireoidismo e meu pequeno nasceu de 34 semanas. Imagina o medo de passar por tudo de novo?
    Parabens pela sua historia de vida! Bjos

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  2. Oi, Aline, obrigada pela visita e pelo comentário carinhoso! Eu entendo seu medo, mas não deixe que ele o paralise. Use o medo como mola propulsora, que tal? Bjs e volte sempre!

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